Entrevista: We Say Go

Foto por Gabriel Boizinho

Angelo Malka e Leandro Pankk , conheceram-se entre a cena hardcore e indie paulista para se dedicarem anos depois a música eletrônica com o projeto We Say Go. O duo tem feita apresentações nas principais casas do segmento alternativo promovendo uma boa discotecagem unindo rock e dance music das últimas três décadas.

A dupla retornou de uma breve tour pelo Reino Unido, sendo que uma das datas foi a convite de Peter Hook – O eterno baixista do New Order/Joy Division.  Acreditem se quiser, eu tinha sido chamado para abrir o show dele no Rio de Janeiro, mas infelizmente estava impossibilitado devido a um freela que me tomou tempo demais.

Os rapazes se preparam para lançar um trabalho com composições autoriais e se aventurarem ainda mais na cena noturna nacional.

1 – Como vocês começaram suas carreiras no mundo da música?

 

Leandro Pankk: Meu pai foi comprar cigarro e nunca mais voltou, mas me deixou três coisas, 3 fitas k7: Johnny Rivers, Afrika Bambaataa e Thriller do Michael Jackson, ouvir aquilo pra mim foi o inicio. Tive a minha primeira quando eu tinha 16 anos, era uma banda com amigos que estudavam comigo no Senai, eu cantava, fiz minhas primeiras aulas de canto nessa época. Sabíamos que não éramos a melhor banda do mundo hahahah, mas mesmo assim era divertido porque tentamos fazer as nossas próprias músicas. Depois que essa banda acabou, um dia eu estava andando na galeria do rock e dentro da loja do Fabio do Olho Seco havia um cartaz feito com marcador: “Procura-se vocalista para banda de hardcore”, não anotei o telefone, arranquei o cartaz para que com isso eu fosse o único candidato para a vaga e logo eu entraria para a banda, e adivinhe… eu consegui! Toquei com eles durante uns três anos.

Mais tarde veio o The Granada Rei, foi aí que eu e o Malka tocamos juntos pela primeira vez, era uma banda de era de punk rock e experimentamos muita coisa nela, no fim não sabemos se era mesmo uma banda de punk rock. Agora eu e o Malka estamos juntos novamente e temos “uma banda de dois”.

Angelo Malka: Minha história musical começou aos sete anos de idade, quando fiz aulas de teclado incentivadas pelo meu pai, também músico, cerca de seis meses depois me apresentei no auditório municipalem São Caetano do Sul juntamente com outros alunos, tocando In The Mood, um clássico do jazz, desde então sabia que aquilo era minha salvação ou perdição, depois disso passei por uma banda de punk-rock chamada Smelly Cats, por uma banda de covers chamada Omega Mary que tocava no antigo Madame Satã e outras casas, pela banda de punk-rock com o Pankk até que cheguei no Starfish 100 ao lado do Demys Schinider, um alemão maluco que me ensinou muito do que sei hoje sobre criar melodias, cansado da dinâmica de banda que temos aqui no Brasil e a chamado do Pankk montamos o We Say Go e cá estou.

2 – Quem os inspirou no início? Como se conheceram e formaram um duo?

 

Leandro Pankk: O New Order sempre foi uma grande inspiração pra gente e ser convidado pra tocar com o Peter Hook no Rio de Janeiro no ano passado foi um grande presente pra gente, foi uma noite linda.

Acho que o ano era 2003, foi quando nos conhecemos e tocamos juntos em uma banda que eu tinha na epóca, foi divertido e fizemos coisas bem legais nessa banda. Ficamos algum tempo sem nos falar sei lá porque, mas em 2009 liguei pro Malka com a idéia de montar um novo projeto, ele topou na hora e na semana seguinte já estavamos trabalhando juntos de novo. Alguns meses depois na Caravana da Coragem a convite do Hero Zero fizemos a nossa primeira apresentação, era o reveillon do agora extinto Vegas Club, ali começava uma nova fase das nossas vidas.

3 – E o nome “We Say Go”? Foi ideia de quem?

 

Angelo Malka: Ele surgiu um dia que estávamos bem no começo do nosso trabalho, onde procurávamos um nome simples de grudar na cabeça de alguém que ouvisse e que representasse nossa essência “up”, algo como um grito da nova geração da música, depois de quase desistir pela procura, e tentar várias fórmulas os dois cheguei com o nome e o Leandro aprovou, aí desde então somos conhecidos por We Say Go.

4 – Vocês acham que os DJs de rock deveriam praticar mais? Muitos profissionais do estilo ficaram estagnados e costumam torcer o nariz quando a técnica é levada ao estilo.

 

Leandro Pankk: Praticar nunca é demais, procuramos aprender mais a cada discotecagem que fazemos, seja tocando rock ou techno. Tocar rock na pista não é tão fácil quanto parece. É muito bom e divertido ver djs como o Dubstrong, Wendell Beatmasters, Zegon, Guab entre outros tocando rock com técnicas que trouxeram de outra linha de discotecagem, e claro, existem outros djs incríveis de rock tocando de formas diferentes pela cidade, cada um teve a sua escola e os que fizeram à lição de casa são os mais interessantes.

5 – Como foi a experiência tocando no Reino Unido?

 

Angelo Malka: No Reino-Unido tivemos a oportunidade de mostrar nosso trabalho, mas também aprender muito, ver qual é o nível dos músicos que residem lá, e perceber o que precisamos aprimorar e o que devemos manter das nossas performances ao vivo com instrumentos e vocais, mostramos nosso trabalho inédito ainda e vimos um pouco da diferença cultural do local, as pessoas vão para os clubes para ouvir as músicas novas e não só pegar o que já está mastigado, um dos locais foi o clássico Vibe Bar em Bricklane, local onde ocorre a música nova em Londres e mesmo local onde o Copacabana Club tocou três dias depois, inclusive tivemos o prazer de voltar no avião com o novo guitarrista da banda.

6 – Planos para 2012?

 

Leandro Pankk: 2011 foi um ano incrível pra gente e é o que esperamos também pra 2012, queremos tocar muito e mostrar o nosso trabalho para todo o publico que esteja interessado no que fazemos, esteja ele no underground ou não. Adoramos viajar e sempre somos muito bem recebidos quando estamos fora, isso faz a gente querer mais, é viciante. Pretendemos também lançar um EP em breve, video clipe e merchandising. Estamos trabalhando pra isso.

7 – Pretendem lançar mais produções autorais?

 

Angelo Malka: Pretendemos lançar muita coisa, hoje eu diria que juntando as composições minhas e do Leandro e as que fizemos juntos, temos cerca de vinte músicas inéditas prontas para irem pra Beatmasters (nossa parceira de estúdio) para uma produção boa para lançamento, o fato é que desde o começo do nosso trabalho temos a idéia que só podemos lançar uma música quando ela chegou num ponto de qualidade aceitável, e isso requer muita dedicação e trabalho, em questão de timbres e melodias queremos transparecer o que nossa alma quer dizer com aquilo, ainda esse ano vamos lançar um EP com músicas completamente inéditas além deste novo single e estamos com conversas com alguns selos para esse lançamento.

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Entrevista com Black Drawing Chalks

Indo contra a corrente do indie pop e com uma das carreiras mais promissoras saídas da cena underground da última década, o Black Drawing Chalks  encontrou no no heavy metal e no stoner rock a sua forma de se expressar para as massas.

Vindos de Goiânia, os quatro integrantes passaram de frequentadores de festivais locais a parte integrante da cena que nos deram MQN Cambriana. Após passarem por dois eventos de grande porte (SWU, Lollaplooza), encontrei um de seus integrantes no show do britânico Carl Barat, em que os rapazes além de abrir a apresentação, tocaram junto com o próprio. Aproveitei e marquei uma entrevista com seus dois vocalistas/guitarristas Edimar Filho e Victor Rocha.

 

1 – Como vocês se conheceram? O cenário musical local os influenciou para ter uma banda?

Nos conhecemos na universidade, montamos uma banda da turma da faculdade, mas logo montamos o BDC, que era parte dessa outra banda.

Sempre fomos influenciados pela cena local, que era cheia de shows pequenos, festivais que nos deixavam mais próximos dos caras das bandas, fazendo o sonho de ter banda algo nao tão surreal.

2 – E o nome Black Drawing Chalks? De onde surgiu?

Surgiu da caixa de lápis carvão, importado de uma amiga nossa. Que era muito antiga, acho que nem existe mais. Gostamos de nomes complicados, da sonoridade.

3 – Quais foram os principais grupos que te influenciaram?

No início o BDC era bem influenciado por Corrrosion of Conformity, Pantera, Down, Faith no More, Black Sabath, Led Zeppelin, depois fomos assimilando influencias de diversos tipos e tempos diferentes, inclusive da nossa própria terra, como o MQN.

4 – Estar no rock no Brasil = estar fodido, mas se divertir?

Em termos muito práticos, pode se dizer que sim. Mas isso depende muito da banda. A frustração é proporcional à expectativa. A banda tem que saber seu tamanho, e saber como trabalhar nesse mercado. Tem vez que os ganhos, e tudo que você soma para sua vida no final, é de um valor incalculável.

Tem hora que você acha que tá meio que ficando velho já pra isso. Mas sempre que você acha que tá ficando velho, vem alguma injeção de animo de novo, e você se sente novamente como um cara de 18 anos numa banda de rock! O resumo é: Se você sabe que está fodido, talvez você não esteja tanto. Mas se você achar que não está, ai, meu caro, você está, e muito!

5 – Qual o melhor show que vocês fizeram até hoje? E o pior?

Difícil, tem vários, existe aquele show em lugares apertados, quentes, sujos, que são inesquecíveis, parece que todos resolvem ficar loucos e pular até nao agüentar mais com a gente. Tem shows para grande numero de pessoas como no SWU, Lollapalooza, que são ótimos também, experiências diferentes.

Shows ruins, nós procuramos esquecer, mas alguns realmente traumatizam, inclusive os que envolvem correntes elétricas, rsrsrrs. Já pegamos horas de estrada dirigindo com instrumentos no colo, pra chegar em lugares pra tocar, sem nada de divulgação, sem nada de backline, lidando tudo na linha e tocando pra 5 pessoas, e depois nao ter onde dormir. Nessas horas o ego da gente toma uma porrada bonita!

6 – E os projetos paralelos? Vão continuar?

Projetos são sempre uma coisa que não se planeja muito. Por enquanto, não existe nada nesse sentido sendo programado. Mas se aparecer alguma coisa legal, que a gente ache que vai ser divertido de fazer, a gente topa sim!

7 – Com quais artistas internacionais vocês mais gostaram de tocar até agora?

Motorhead foi memorável, poder trocar idéia rápida com Lemmy, a lenda é algo que quero contar para meus bisnetos. Tocar com bandas como Datsuns, Nashville Pussy, Eagles of Death Metal, Queens of Stone Age, Rage Agains the Machine, Arctic Monkeys, Foo Fighters, Black Mountain, Muse, Sepultura… Enfim, poder dividir backstage, camarin, passagem de som com uma galera dessas é um privilégio para poucos. A gente tenta observar e aprender.

8 – Planos para o segundo semestre?

A gente está bem focado no lançamento do álbum novo, e em todo o trabalho de divulgação para esse trabalho. Os planos para o segunda semestre, são o lançamento do quarto álbum, alguns vídeo clipes, e rodar o Brasil todo de novo, tocando as músicas novas.

Entrevista: Bruno Belluomini

Bruno Belluomini é o nome por trás da cultuada festa de “Bass Music” Tranquera, que funciona também como uma central de informações para o crescente público de dubstep.

Belluomini iniciou seus passos no mundo da música atuando na cena hardcore de SP, mas no meio do caminho, seus ouvidos foram seduzidos pela música eletrônica. Especialmente pelas batidas quebradas e graves pulsantes do drum n´bass.

Seu séquito foi crescendo ao longo dos anos e sua noite virou uma das grandes referências no underground. O DJ/produtor prepara-se para tocar na festejada versão brasileira do festival Sónar (no mês de maio) ao lado de medalhões como Chromeo, Cee Lo Green, Flying Lotus e outros nomes ascendentes da dance music.

1. Como foi seu primeiro contato com a música eletrônica? Quem foi o responsável por você abraçar de vez a “Bass Music”?

Conta o fato de poder escolher pessoalmente entre K7 ou vinil o famigerado House Remix Internacional, na Hi-Fi, no final dos 80? Hahahahaha! Quem fez com que pudesse acreditar no meu trabalho mesmo foi o Marky – descia no Lov.e de bicicleta, deixava a bike amarrada no poste e só saia de lá depois do café da manhã. A minha história com a Bass Music começou no Jungle e no som do Marky.

2. Conte um pouco sobre seu passado na cena Hardcore.

O Hardcore e o Punk Rock foram as minhas escolas sonoras durante a adolescência: ir aos shows, gravar fitas para trocar com os amigos, escrever fanzines, colocar carta no correio, tudo isso me marcou bastante. O “DIY” faz muito sentido para mim.

3. A Tranquera é uma noite pioneira no atualmente comentado Dubstep. Foi difícil formar um público que ainda não estava familiarizado com o estilo?

A Tranquera surgiu em 2005. Naquela época o som ainda era muito pouco conhecido pelo grande público e nenhum clube topava conversar sobre a minha festa de forma profissional, até que um dia o Facundo me recebeu e topou testar minha idéia. Por anos fizemos a Tranquera em lugares diferentes: em bares, nas ruas, em galpões, etc.

4. O que podemos esperar de sua apresentação no Sónar em maio?

Sons graves com forte influência de Chicago e Detroit.

5. Planos para criar uma nova festa? Algum som novo que pode acontecer muito em breve por aqui?

O plano agora é manter a qualidade criativa do que já fazemos.

6. Algum produtor novo que você recomende?

Vários: Tessela, Krystal Klear, Lone, Martyn, Blawan, Julio Bashmore Boddika, Joy Orbison, Jon Convex, Addison Groove, Ramadanman, Scuba e Geiom.

7. Você acredita num revival maciço do Jungle ou do Drum’n’bass?

O que tenho visto hoje são alguns artistas usando o Jungle e o Breakbeat Hardcore como referência principal em suas produções. Essa é uma pergunta que o Marky deve saber a resposta.

Entrevista: Gattopardo

Com raízes fincadas no punk 77, no wave & pós -punk,  os rapazes da Gattopardo são mais um novo exemplo de artistas que nadam contra a correnteza do pop aceitável da cena paulistana.

Tirando uma sonoridade que remete ao período de bandas como Mercenárias, Akira S e Fellini, foi uma boa surpresa ouvir suas duas primeiras faixas disponíveis no Soundcloud.

Conversei com dois de seus integrantes, Elcio Basílio e Pedro Keppler

1 – Quando pintou a ideia de formar uma banda? O quê moveu vocês?

Elcio: A ideia inicial da banda surgiu quando eu conheci o Rodrigo (guitarra). Nossa idéia era montar uma banda ’77 com influências de Clash, Adverts, Richard Hell, Stiff Little Fingers etc. com letras em português. Mas não tínhamos baterista, nem conseguíamos entrar em acordo quando compúnhamos. A banda deu um tempo, começamos a escutar outras coisas, principalmente pós-punk e as bandas da Crass Records. Quando conheci o Pedro, falei para ele que a gente estava pensando em fazer um som meio Peace Punk, meio Pós Punk. Ele topou, e enquanto isso eu e o Rodrigo começamos a fazer umas músicas, finalmente. Mas foi quando o Alan (bateria) entrou que a gente adotou o nome Gattopardo e começou a tocar de verdade, ensaiando em estúdio e já buscando uma sonoridade mais próxima do pós punk mesmo, que nos identificamos por ser meio estranha e com um clima mais soturno.

Pedro: O Elcio e o Rodrigo já tinham a banda, de certa maneira. Eu tocava pós-punk já com o Fellipe, amigo meu, num esquema de gravação em casa. Nós só sentávamos para compor. Essa banda, o NNNEEEMMM durou um ano e lançou uma demo. Mas ainda temos planos de voltar. O Gattopardo surgiu e eu queria algo mais rock, mais palco e raça, menos sofisticação, entende? E o Alan surgiu um dia no bar que frequentamos, conversamos sobre música e ele se interessou em tocar conosco. Ele já tinha bandas no meio hardcore, na época, inclusive, já andava bastante longe com o Push Mongos. Com essa história do hardcore, ele sempre teve banda. Mas sempre foi aberto para coisas novas também, acho que isso que trouxe ele para tocar conosco.

2 – O nome Gattopardo é alusão ao ditado: “A noite todos os gatos são pardos”?

Elcio: Sim, pensamos no ditado também. Mas a razão principal do nome Gattopardo é o filme do Visconti baseado no romance homônimo do Lampedusa que retrata uma família aristocrática Siciliana durante o período de Unificação da Itália.

Pedro: Na verdade, o Elcio tinha esse nome há um tempo. Apesar de Gattopardo vir do livro que o Visconti fez um filme, os primeiros ensaios foram marcados como Gatos Pardos. Alguma coisa a ver com gato negro, símbolo anarquista, a simbologia do gato etc. como nessa sua pergunta. Mas depois eu lutei muito para chamar nossa banda de Hexen. Tinha até um logo. É engraçado até, pois foram vários nomes que fizemos testando logos e todos os dias, depois das aulas na USP, pegava ônibus com o Elcio mostrando os desenhos. Lumpen, Hex, Hexen, Luppi (de lobos), Crassos (em alusão aos irmãos romanos e ao Crass, que é uma de nossas bandas favoritas), Gracos (também em alusão à Roma Antiga). No final, nada era bom o suficiente e simplificamos por imposição Gattopardo, para ser prático de uma vez.

3 – Detectei boas referências do Pós Punk nacional no som de vocês. Quais bandas daqui (e de fora) que influenciaram vocês?

Elcio: Do Pós Punk nacional as Mercenárias e Fellini são nossas bandas favoritas. De fora, gostamos bastante de Siouxsie and the Banshees, Gang of Four, PiL, Joy Division, Dead Kennedys, Bauhaus, Television, The Fall, Crisis, Zounds, Crass, Wire, New Order, The Wake, Iggy Pop…

Pedro: Eu vejo da seguinte maneira. Todos nós gostamos das mesmas bandas, praticamente, mas com medidas diferentes. O Rodrigo é amarrado com o Smiths, ele sempre toca riffs do Johnny Marr para ver se a guitarra está afinada. O Alan tem uma coisa com hardcore, muito d-beat, também. O Elcio puxa muito da blank generation, punk rock bem de 1977, até pela performance dele. O meu interesse mesmo é em música experimental, sons novos etc. Mas não posso deixar de dizer, como fã religioso de the Fall que escuta um disco praticamente todo dia, que essa banda é minha maior influência. Do pós-punk nacional é importante manter essa corrente. Eu faço questão que as músicas sejam em português.

4 – A cena musical brasileira tem dado maior destaque a artistas “engraçadinhos” desde os anos 2000. É possível reverter essa situação?

Elcio: Sim, sempre é reversível. O rock nacional dos anos 80 é lembrado pelo seu engajamento, e hoje o que vemos é o oposto. Apesar do crescimento econômico e da diferença de contexto de lá pra cá, ainda acredito que seja necessário uma postura política mais bem definida pelos artistas presentes na mídia. Existe um certo comodismo de que tudo está indo muito bem e as coisas vão mudar por si só. Mas não é bem assim, se nós não cobrarmos a mundança, ela nunca ocorrerá. E a canção popular sempre foi um meio eficiente para isso.

Pedro: A situação a ser revertida tem muito mais a ver com a mentalidade brasileira de abaixar a cabeça. As pessoas parecem incapazes de buscar algo além de seus círculos. E a música engraçadinha facilita isso. É bastante conformista, não leva ao conflito. Se é possível reverter não entra tanto no nosso mérito, mas o que nós fazemos está contra a correnteza e, independente de conseguirmos nadar ou sermos levados por ela, é extremamente gratificante pensar que não nos conformamos com o que somos contra.

5 – Vocês tem planos para lançar um álbum e marcar shows ainda em 2012?

Elcio: Acho que um álbum ainda não é viável, mas estamos para gravar uma nova demo e pretendemos lançar um EP no segundo semestre. Quanto aos shows, temos quatro marcados até abril, todos na cidade de São Paulo. Mas aceitamos convites para tocar nas cidades próximas.

Pedro: Sim, aliás, eu pensava em nunca tocar em São Paulo e apenas nas cidades próximas. Quanto maior São Paulo fica e mais oportunidades surgem nela, mais ela parece ficar cafona, limitada e até fascista. Chamem-nos para tocar na sua cidade e nós buscamos acertar isso com o maior prazer!

6 – O quê vocês pretendem fazer quando chegar a idade do lobo?

Elcio: Na canção “A hora do lobo” existe uma crítica à virtude como um fim em si mesma e à maturidade como o estágio em que o ser humano descobre as “verdades” da vida. Esperamos que saibamos lidar com isso de uma forma menos hipócrita. Fora isso, não temos planos tão distantes.

Pedro: A gente é meio Peter Pan, às vezes.

Entrevista: Benjamin Ferreira

Com uma notável trajetória nos decks, o paraense Benjamin Ferreira batalhou seu “lugar ao sol” na concorrida noite de São Paulo. Munido de um repertório que vai de clássicos da disco a novas tendências da house music, Benja (como é chamado pelos amigos) consegue deixar um ar sofisticado em seus sets, mesmo quando dispara algum hit dançante considerado kitsch há alguns anos atrás.

Atuando tanto em suas residências (Poperô, Boogie Nights e Ursound) como no projeto Boogie Central, o DJ esbanja simpatia por onde passa e agrega uma nova leva de fãs sedentos por uma boa pista.

Tive uma esclarecedora conversa com essa figura:

1 – Desde seu início de carreira aos dias de hoje, quais são as maiores dificuldades que você presenciou na profissão DJ.

Primeiro, no fim dos anos 90, era difícil achar algum lugar pra tocar. Resolvi me juntar com meus amigos para fazer festas e assim nasceu o Coletivo Cotonete. Começamos devagar, e algum tempo depois estávamos fazendo festas para milhares de pessoas, mas lá por 2004 as coisas começaram a ficar complicadas. Um dos momentos mais difíceis foi quando precisei vender meus toca-discos para pagar dívidas de uma festa.

2 – Como era a cena eletrônica em Belém do Pará antes de toda popularização de tecnobrega e afins?

Antes mesmo do surgimento da house, a cena de dance music em Belém era muito forte. Havia clubes e DJs de periferia no início dos anos 80 que arrastavam multidões tocando funk, boogie, disco. Povão ouvindo Gino Soccio, Shalamar, Prelude Records. Era lindo. Quando as aparelhagens surgiram, também na periferia, mas no fim dos anos 80, sempre havia um espaço para house. Eu lembro porque nasci e me criei na periferia e, mesmo moleque, vivenciei um pouco desse surgimento. Fugia de bicicleta e ficava do lado de fora ouvindo Bomb The Bass, Hithouse, os primeiros remixes de Clivilles & Cole.

Em meados dos anos 90 comecei a tocar profissionalmente. A coisa já tinha esfriado na perifa e as festas aconteciam mais no centro e nos bairros mais ricos, o que foi uma pena. Quando o tecnobrega surgiu, a eletrônica (house, techno etc.) já não tinha mesmo muita força nos bairros mais afastados. Por isso não acho que o tecnobrega tenha tomado o lugar da música eletrônica.

Respeito muito às aparelhagens, os artistas e todos os envolvidos com o (tecno) brega. Tenho orgulho de saber que na minha terra um movimento popular apertou o foda-se para as grandes gravadoras e prosperou mundialmente, tenho orgulho de ligar a TV e ver uma artista formidável como a Gaby Amarantos em todo lugar. Só que o som que eu ouço, toco e faço é diferente: nem melhor, nem pior do que o tecnobrega ou qualquer outro.

3 – Quais eram seus heróis de ontem e de sempre? Tem alguém que você adoraria dividir a cabine algum dia?

Larry Levan, um cara que nem era muito técnico, mas tocava com o coração e emocionava. Outro revolucionário e herói é David Mancuso e, como esse ainda está entre nós, adoraria tocar com ele do jeito que ele fazia no Loft: em um equipamento perfeito, todas as músicas do começo ao fim, no pitch zero e sem mixar, uma das maiores reverências que um DJ pode fazer à música que toca.

4 – Você toca em duas noites em que o foco principal ainda é a música, coisa que raramente vimos rolando na cena noturna de uns anos pra cá. Ainda há um “foco de resistência”?

Sem dúvida. É uma das coisas mais gratificantes ver gente nas minhas residências cantando músicas que não tocam no rádio, perguntando nomes de faixas, voltando nas próximas festas. Gente que aparece por acaso e fica até o fim da noite. Essa é a minha maior motivação para continuar.

5 – Conte um pouco sobre o Boogie Central.

Boogie Central é um projeto meu com o amigo Érico Theobaldo, um multi-instrumentista, produtor e DJ talentosíssimo. Nosso primeiro lançamento foi um remix para o Faze Action em 2010, e depois saiu um remix nosso para a banda dele, Telepathique. Estamos com uma faixa autoral pronta, Kawah, que já ando tocando, e uma outra quase pronta. Os planos para 2012 são de lançar essas duas faixas, fazer outras e começar um live.

Fazer música com o Érico é uma experiência incrível. Tenho ideias, mas jamais conseguiria colocá-las em prática sem a experiência e as ideias dele, um cara extremamente humilde e aberto às minhas opiniões. O que eu aprendo com ele a cada sessão de estúdio é incomensurável.

6 – Aonde podemos te ouvir logo mais?

Atualmente estou com três residências: Boogie Nights, as sextas no Caos (onde toco uma vez por mês e onde também são residentes Magal e Renato Cohen ), Poperô, no Bar do Netão (onde faço long sets com Renato Cohen, um sábado por mês) e Ursound (quinzenalmente, na pistinha underground). Espero vocês (e você também, amigo Bezzi) por lá! =)