Bate papo com Julia Valle

Julia Valle graduou-se em comunicação visual e levou todo seu conhecimento na área para subverter o mundo da moda.  Nele, criou peças desustruturadas  e assimétricas no intuito de combater o tédio fashionista que assola parte das passarelas no país.

A estilista mineira fugiu tanto do óbvio, que produziu uma coleção baseada num modelo de máquina de escrever nada ortodoxo e utilizou partes dela na confecção de acessórios.

Julia deixou sua marca colaborando com marcas como Fit, Ellus, Redley , e teve parte de seus trabalhos expostos em galerias no Brasil, Estados Unidos e Eslovênia.

Abaixo, segue o bate papo que tive com a própria. Com vocês, Julia Valle:

1 – Como você descobriu que tinha vocação pra moda?

Acho que ainda não descobri (risos)

Quando criança eu desgostava muito da ‘moda’. Das mochilas da company, dos tenis m2000, depois dos moletons da Disney, achava uma péssima idéia aquela de todo mundo usar as mesmas coisas e tinha uma dificuldade enorme pra conseguir encontrar roupas pra mim. Meu pai costurava algumas coisas pra gente, mais tarde me ajudava a modificar os uniformes do colégio, e depois comecei a costurar algumas coisas por ser bem pequena.

Mais tarde entendi que o desgosto nao era desgosto, e sim interesse. Gostava de roupas o suficiente para querer que o que eu fosse usar significasse o máximo de mim. E crio para pessoas que compartilham esse olhar.

2 – Arte, moda e tecnlogia andam juntas?

Arte e moda andam juntas com quase qualquer coisa, eu acho. Sao áreas que se alimentam o tempo inteiro de tudo que está em volta. Tecnologia computacional, textil, social, geografia, matemática, historia, medicina, acho que tudo serve como campo inspiracional, pra moda e para a arte. E tem muito em comum, tanto da criatividade, da expressividade quanto da comerciabilidade. É dificil hoje determinar limites de até onde vai cada coisa, cada campo do conhecimento.

3 – Há espaço para novas ideias em um nicho onde a cultura retrô está predominando?

Hoje há espaço para tudo. Vemos, sim, uma frequente referenciação ao passado, seja nos brechós que tem se multiplicado (o que eu acho maravilhoso), nas coleções de moda que propoe releituras de importantes coleções ou peças do passado, ou nos ininterruptos ‘revivals’ (cujos intervalos com o ‘contemporâneo’ tem sido cada vez mais estreitados). Mas existe tambem um olhar para o presente (acho que citaria Rodarte, Ackerman e Doma, dentre tantos outros) e um olha para o futuro com respeito ao passado (Chalayan, Yamamoto, Watanabe).

As ideias mais novas, no entanto, tem surgido mais das pesquisas em tecnologia textil do que efetivamente na moda. Estamos passando por uma época complicada, de crises e de superinformação, a moda parece estar se preocupando mais em sobreviver do que em propor alguma revolução. O que é uma pena, na minha opinião.

4 – Como foi sua experiência na Dinamarca?

Foi muito engrandecedora, em diversos sentidos. Mudei bastante a forma de pensar a sociedade, o estudo, os processos criativos. A cultura, o design, a estruturação do ensino, das cidades, a relação das pessoas com o corpo, com a alimentação, é muito diferente e muito respeitoso. Mas ao mesmo tempo, ví um país extremamente xenófobo, que me fez nao hesitar em voltar. Trouxe os bons aprendizados, o resto deixei por lá. : )

5 – Achei muito interessante sua coleção TNWMLC. De onde veio essa inspiração tão peculiar?

Um dia comecei a ler um pouco mais sobre a proposta de diagramação de teclados chamada DVORAK (uma ‘concorrente’ da QWERTY, que é essa que todo mundo usa), que propunha um digitar mais rápido, confortável e com menos esforço. No meio da pesquisa me foi indicado o site do Martin K. (carPalx – http://mkweb.bcgsc.ca/carpalx/?worst_layout), e lá encontrei essa ideia maravilhosa, um teclado que fazia exatamente o contrário do que todo mundo estava buscando: era o mais desconfortável possível. E a partir daí saiu um projeto bem grande.

6 – Qual estlista você recomendaria a algum leigo em moda estudar?

Acho que depende muito do que a pessoa tem como valores, interesses e gosto. Tenho lido bastante do Yohji Yamamoto e da produção de tecidos no Japão. Admiro muito a forma como ele pensa a construção da roupa e tudo que existe por trás. Aí tem um livro legal dele que indicaria a qualquer um, My Dear Bomb, são pequenos contos sobre a vida dele como criador, homem, pai, marido, japonês. É bem bonito.

7 – Já que aqui o foco também é música, queria saber quais são seus artistas favoritos. Algum que você foi muito fã?

Essa resposta você já sabe!

É engraçado, que fui muito ligada a música durante toda a minha adolescencia, toquei em algumas bandas, colecionava albuns, assinava revistas inglesas especializadas, estava sempre em busca de novidades musicais. Mas aí, pela falta do ipod, pelo excesso de trabalho, talvez, acabei ficando com as mesmas bandas de antes, então meus artistas favoritos sao, ainda, aqueles lá dos anos 90, dos britpoppers e dos rocks suecos. Blur, Radiohead, Elastica, Lush, Cardigans, Pulp, Bob Hund, Muse, Huggy Bear, Kent, e por ai vai. To precisando acompanhar mais de perto seu blog, diz aí. : )

8 – Planos pra 2012?

Muitos.

O ano começou com uma grande perda para mim, dessas que pedem muita reflexão sobre as escolhas, as prioridades, os valores. Então será um ano de muita força. Quero dedicar o tempo merecido a mais projetos pessoais, viajar mais e mais longe, passar mais tempo com a família, e estudar bastante.

O Blur é uma das grandes paixões musicais da estilista.