Entrevista: Gattopardo

Com raízes fincadas no punk 77, no wave & pós -punk,  os rapazes da Gattopardo são mais um novo exemplo de artistas que nadam contra a correnteza do pop aceitável da cena paulistana.

Tirando uma sonoridade que remete ao período de bandas como Mercenárias, Akira S e Fellini, foi uma boa surpresa ouvir suas duas primeiras faixas disponíveis no Soundcloud.

Conversei com dois de seus integrantes, Elcio Basílio e Pedro Keppler

1 – Quando pintou a ideia de formar uma banda? O quê moveu vocês?

Elcio: A ideia inicial da banda surgiu quando eu conheci o Rodrigo (guitarra). Nossa idéia era montar uma banda ’77 com influências de Clash, Adverts, Richard Hell, Stiff Little Fingers etc. com letras em português. Mas não tínhamos baterista, nem conseguíamos entrar em acordo quando compúnhamos. A banda deu um tempo, começamos a escutar outras coisas, principalmente pós-punk e as bandas da Crass Records. Quando conheci o Pedro, falei para ele que a gente estava pensando em fazer um som meio Peace Punk, meio Pós Punk. Ele topou, e enquanto isso eu e o Rodrigo começamos a fazer umas músicas, finalmente. Mas foi quando o Alan (bateria) entrou que a gente adotou o nome Gattopardo e começou a tocar de verdade, ensaiando em estúdio e já buscando uma sonoridade mais próxima do pós punk mesmo, que nos identificamos por ser meio estranha e com um clima mais soturno.

Pedro: O Elcio e o Rodrigo já tinham a banda, de certa maneira. Eu tocava pós-punk já com o Fellipe, amigo meu, num esquema de gravação em casa. Nós só sentávamos para compor. Essa banda, o NNNEEEMMM durou um ano e lançou uma demo. Mas ainda temos planos de voltar. O Gattopardo surgiu e eu queria algo mais rock, mais palco e raça, menos sofisticação, entende? E o Alan surgiu um dia no bar que frequentamos, conversamos sobre música e ele se interessou em tocar conosco. Ele já tinha bandas no meio hardcore, na época, inclusive, já andava bastante longe com o Push Mongos. Com essa história do hardcore, ele sempre teve banda. Mas sempre foi aberto para coisas novas também, acho que isso que trouxe ele para tocar conosco.

2 – O nome Gattopardo é alusão ao ditado: “A noite todos os gatos são pardos”?

Elcio: Sim, pensamos no ditado também. Mas a razão principal do nome Gattopardo é o filme do Visconti baseado no romance homônimo do Lampedusa que retrata uma família aristocrática Siciliana durante o período de Unificação da Itália.

Pedro: Na verdade, o Elcio tinha esse nome há um tempo. Apesar de Gattopardo vir do livro que o Visconti fez um filme, os primeiros ensaios foram marcados como Gatos Pardos. Alguma coisa a ver com gato negro, símbolo anarquista, a simbologia do gato etc. como nessa sua pergunta. Mas depois eu lutei muito para chamar nossa banda de Hexen. Tinha até um logo. É engraçado até, pois foram vários nomes que fizemos testando logos e todos os dias, depois das aulas na USP, pegava ônibus com o Elcio mostrando os desenhos. Lumpen, Hex, Hexen, Luppi (de lobos), Crassos (em alusão aos irmãos romanos e ao Crass, que é uma de nossas bandas favoritas), Gracos (também em alusão à Roma Antiga). No final, nada era bom o suficiente e simplificamos por imposição Gattopardo, para ser prático de uma vez.

3 – Detectei boas referências do Pós Punk nacional no som de vocês. Quais bandas daqui (e de fora) que influenciaram vocês?

Elcio: Do Pós Punk nacional as Mercenárias e Fellini são nossas bandas favoritas. De fora, gostamos bastante de Siouxsie and the Banshees, Gang of Four, PiL, Joy Division, Dead Kennedys, Bauhaus, Television, The Fall, Crisis, Zounds, Crass, Wire, New Order, The Wake, Iggy Pop…

Pedro: Eu vejo da seguinte maneira. Todos nós gostamos das mesmas bandas, praticamente, mas com medidas diferentes. O Rodrigo é amarrado com o Smiths, ele sempre toca riffs do Johnny Marr para ver se a guitarra está afinada. O Alan tem uma coisa com hardcore, muito d-beat, também. O Elcio puxa muito da blank generation, punk rock bem de 1977, até pela performance dele. O meu interesse mesmo é em música experimental, sons novos etc. Mas não posso deixar de dizer, como fã religioso de the Fall que escuta um disco praticamente todo dia, que essa banda é minha maior influência. Do pós-punk nacional é importante manter essa corrente. Eu faço questão que as músicas sejam em português.

4 – A cena musical brasileira tem dado maior destaque a artistas “engraçadinhos” desde os anos 2000. É possível reverter essa situação?

Elcio: Sim, sempre é reversível. O rock nacional dos anos 80 é lembrado pelo seu engajamento, e hoje o que vemos é o oposto. Apesar do crescimento econômico e da diferença de contexto de lá pra cá, ainda acredito que seja necessário uma postura política mais bem definida pelos artistas presentes na mídia. Existe um certo comodismo de que tudo está indo muito bem e as coisas vão mudar por si só. Mas não é bem assim, se nós não cobrarmos a mundança, ela nunca ocorrerá. E a canção popular sempre foi um meio eficiente para isso.

Pedro: A situação a ser revertida tem muito mais a ver com a mentalidade brasileira de abaixar a cabeça. As pessoas parecem incapazes de buscar algo além de seus círculos. E a música engraçadinha facilita isso. É bastante conformista, não leva ao conflito. Se é possível reverter não entra tanto no nosso mérito, mas o que nós fazemos está contra a correnteza e, independente de conseguirmos nadar ou sermos levados por ela, é extremamente gratificante pensar que não nos conformamos com o que somos contra.

5 – Vocês tem planos para lançar um álbum e marcar shows ainda em 2012?

Elcio: Acho que um álbum ainda não é viável, mas estamos para gravar uma nova demo e pretendemos lançar um EP no segundo semestre. Quanto aos shows, temos quatro marcados até abril, todos na cidade de São Paulo. Mas aceitamos convites para tocar nas cidades próximas.

Pedro: Sim, aliás, eu pensava em nunca tocar em São Paulo e apenas nas cidades próximas. Quanto maior São Paulo fica e mais oportunidades surgem nela, mais ela parece ficar cafona, limitada e até fascista. Chamem-nos para tocar na sua cidade e nós buscamos acertar isso com o maior prazer!

6 – O quê vocês pretendem fazer quando chegar a idade do lobo?

Elcio: Na canção “A hora do lobo” existe uma crítica à virtude como um fim em si mesma e à maturidade como o estágio em que o ser humano descobre as “verdades” da vida. Esperamos que saibamos lidar com isso de uma forma menos hipócrita. Fora isso, não temos planos tão distantes.

Pedro: A gente é meio Peter Pan, às vezes.