Entrevista: Benjamin Ferreira

Com uma notável trajetória nos decks, o paraense Benjamin Ferreira batalhou seu “lugar ao sol” na concorrida noite de São Paulo. Munido de um repertório que vai de clássicos da disco a novas tendências da house music, Benja (como é chamado pelos amigos) consegue deixar um ar sofisticado em seus sets, mesmo quando dispara algum hit dançante considerado kitsch há alguns anos atrás.

Atuando tanto em suas residências (Poperô, Boogie Nights e Ursound) como no projeto Boogie Central, o DJ esbanja simpatia por onde passa e agrega uma nova leva de fãs sedentos por uma boa pista.

Tive uma esclarecedora conversa com essa figura:

1 – Desde seu início de carreira aos dias de hoje, quais são as maiores dificuldades que você presenciou na profissão DJ.

Primeiro, no fim dos anos 90, era difícil achar algum lugar pra tocar. Resolvi me juntar com meus amigos para fazer festas e assim nasceu o Coletivo Cotonete. Começamos devagar, e algum tempo depois estávamos fazendo festas para milhares de pessoas, mas lá por 2004 as coisas começaram a ficar complicadas. Um dos momentos mais difíceis foi quando precisei vender meus toca-discos para pagar dívidas de uma festa.

2 – Como era a cena eletrônica em Belém do Pará antes de toda popularização de tecnobrega e afins?

Antes mesmo do surgimento da house, a cena de dance music em Belém era muito forte. Havia clubes e DJs de periferia no início dos anos 80 que arrastavam multidões tocando funk, boogie, disco. Povão ouvindo Gino Soccio, Shalamar, Prelude Records. Era lindo. Quando as aparelhagens surgiram, também na periferia, mas no fim dos anos 80, sempre havia um espaço para house. Eu lembro porque nasci e me criei na periferia e, mesmo moleque, vivenciei um pouco desse surgimento. Fugia de bicicleta e ficava do lado de fora ouvindo Bomb The Bass, Hithouse, os primeiros remixes de Clivilles & Cole.

Em meados dos anos 90 comecei a tocar profissionalmente. A coisa já tinha esfriado na perifa e as festas aconteciam mais no centro e nos bairros mais ricos, o que foi uma pena. Quando o tecnobrega surgiu, a eletrônica (house, techno etc.) já não tinha mesmo muita força nos bairros mais afastados. Por isso não acho que o tecnobrega tenha tomado o lugar da música eletrônica.

Respeito muito às aparelhagens, os artistas e todos os envolvidos com o (tecno) brega. Tenho orgulho de saber que na minha terra um movimento popular apertou o foda-se para as grandes gravadoras e prosperou mundialmente, tenho orgulho de ligar a TV e ver uma artista formidável como a Gaby Amarantos em todo lugar. Só que o som que eu ouço, toco e faço é diferente: nem melhor, nem pior do que o tecnobrega ou qualquer outro.

3 – Quais eram seus heróis de ontem e de sempre? Tem alguém que você adoraria dividir a cabine algum dia?

Larry Levan, um cara que nem era muito técnico, mas tocava com o coração e emocionava. Outro revolucionário e herói é David Mancuso e, como esse ainda está entre nós, adoraria tocar com ele do jeito que ele fazia no Loft: em um equipamento perfeito, todas as músicas do começo ao fim, no pitch zero e sem mixar, uma das maiores reverências que um DJ pode fazer à música que toca.

4 – Você toca em duas noites em que o foco principal ainda é a música, coisa que raramente vimos rolando na cena noturna de uns anos pra cá. Ainda há um “foco de resistência”?

Sem dúvida. É uma das coisas mais gratificantes ver gente nas minhas residências cantando músicas que não tocam no rádio, perguntando nomes de faixas, voltando nas próximas festas. Gente que aparece por acaso e fica até o fim da noite. Essa é a minha maior motivação para continuar.

5 – Conte um pouco sobre o Boogie Central.

Boogie Central é um projeto meu com o amigo Érico Theobaldo, um multi-instrumentista, produtor e DJ talentosíssimo. Nosso primeiro lançamento foi um remix para o Faze Action em 2010, e depois saiu um remix nosso para a banda dele, Telepathique. Estamos com uma faixa autoral pronta, Kawah, que já ando tocando, e uma outra quase pronta. Os planos para 2012 são de lançar essas duas faixas, fazer outras e começar um live.

Fazer música com o Érico é uma experiência incrível. Tenho ideias, mas jamais conseguiria colocá-las em prática sem a experiência e as ideias dele, um cara extremamente humilde e aberto às minhas opiniões. O que eu aprendo com ele a cada sessão de estúdio é incomensurável.

6 – Aonde podemos te ouvir logo mais?

Atualmente estou com três residências: Boogie Nights, as sextas no Caos (onde toco uma vez por mês e onde também são residentes Magal e Renato Cohen ), Poperô, no Bar do Netão (onde faço long sets com Renato Cohen, um sábado por mês) e Ursound (quinzenalmente, na pistinha underground). Espero vocês (e você também, amigo Bezzi) por lá! =)