Entrevista: Muzzarelas

Surgido em meio a explosão do rock “alternativo” em 1991 na cidade de Campinas, o Muzzarelas começou com a união de amigos que apenas queriam se divertir tocando covers dos Ramones e beber litros de cerveja. Em pouco tempo eles viraram atração da cena local e começaram a criar suas próprias composições. As performances selvagens atraíam cada vez mais curiosos sedentos por punk-rock e os novos fãs de sons independentes.

A consagração veio no histórico Junta Tribo em 1993 – o primeiro festival indie do país. Ao lado de nomes como Mickey Junkies, Safari Hamburgers, Raimundos, Planet Hemp, Pin Ups, Tube Screamers e Killing Chainsaw, os rapazes conseguiram ter destaque apresentando um dos shows mais absurdos da noite e assim, aumentado seu séquito de fãs. Incluindo esse que vos escreve.

Com mais de vinte anos de bons serviços prestados ao rock, a banda tem uma respeitável discografia e influenciou uma geração que prega diversão e pouca firula  ao vivo. Após um fim anunciado, resolveram retornar em grande estilo numa tour que vai rodar o Brasil sem data definida para terminar. Vida longa aos Muzzarelas!

Troquei uma ideia com o baixista DanielEteGiometti :

1- O Muzzarelas foram uma das primeiras bandas independentes nacionais que me chamou a atenção nos anos 90. Como rolou de vocês se conhecerem? O nome foi realmente tirado de um desenho da Hanna Barbera?

O nome veio de uma piada interna relacionada a abstinência sexual.A gente se conhece desde de bem  antes da muzzas,alguns já foram vizinhos,outros tiveram bandas juntos , outros estudaram na mesma escola,outros bebiam no mesmo bar,mas basicamente nos conhecemos numa cena punk/metal/rockpodre ou sei lá mais o que,que rolava em Campinas na segunda metade dos anos 80,época essa em que não se tomava banho,nem se penteava o cabelo para ir num show de rock…senão era considerado um comédia.

2 – Não tem como esquecer a versão de “Macho Man” tocada no mítico festival Junta Tribo. Qual a lembrança mais doida que você tem desse evento?

Acordar no dia seguinte com uma ressaca monstro e  todo sujo de terra ,mas com um sorrisão de orelha a orelha,o lençol da minha cama ficou com uma marca de terra vermelha que parecia  o santo sudário. Aquele festival, principalmente a primeira edição de 1993,foi um marco muito importante para a música brasileira,mostrou p/ todo o país uma nova cena rock construída a base de zines ,cartas e fitas K7,uma cena que fazia questão de se distanciar o máximo possível daquele rock mequetrefe dos anos 80 e seus pedais chorus malditos, que as gravadoras insistiam em enfiar goela abaixo do povão. Foi um rolê inacreditável com gente torta de tudo quanto é canto do Brasil ouvindo bandas legais e se divertindo para caralho.

3 – Suas músicas chegaram a tocar em rádios quando o grunge, punk e rock pesado ganharam o grande público. Isso ajudou nas vendas dos CDs e de certa forma em agregar um público maior?

Não ajudou muito a vender cds porque na época a gente tinha só fitas K7,mas ajudou a projetar o nome, porque naquele tempo havia uma puta duma procura por coisas novas e selvagens, já que a fonte de bandas pré-fabricadas parecia ter se esgotado(algo semelhante ao que acontece nesse exato momento para ser  mais exato).Na verdade eu  no alto de minha inocência ,cheguei a achar que as coisas realmente  mudariam p/ melhor,mas no fim deu tudo na mesma merda,porque muitos pilantras e oportunistas tambem embarcaram nessa onda e distorceram a parada toda.O resultado é essa merda de rock safado que os jovens desavisados ouvem hoje em dia.

4 – Diversos artistas se aventuraram no boom do rock alternativo e muitos quebraram a cara. Vocês em momento algum “amansaram” seu som. Ser honesto com os fãs ainda é o melhor negócio?

Somos da escola RDP – V.C.D.M.S.A de se fazer rock,tudo o que a gente aprendeu tanto como músicos como em relação a produção ,usamos para fazer com que as músicas ficassem mais barulhentas,pesadas e rápidas,e as letras cada vez mais lazarentas.Acho que não chega nem a ser o caso de ser honesto ou não com os fãs,já que esse é o único som que conseguimos fazer quando nos juntamos,não tem como ser diferente.

Imagina só se a gente tivesse incorporado ritmos brasileiros mal tocados e sem groove ao nosso som na década de 90 (como ditava a polícia do bom gosto da época) ou se  tivéssemos virado uns emos de 40 anos para fisgar uns fãs do restart ou qualquer uma dessa bandas desgraçadas…não rola né? Da onde eu venho essa atitude é passível de uma morte lenta,horripilante e dolorosa,tipo um empalamento ao som do Brigada do Ódio enquanto a multidão enfurecida clama por vingança.

5 – Quais bandas novas vocês escutam? Acham que o rock nunca vai ter os culhões de antes?

Sempre vai ter gente com culhões e que  acha uma baita duma merda tudo o que os outros acham lindo,de bom gosto e descoladinho ,são essas pessoas que mantém o rock ,ou qualquer outro tipo de som vivo,que mantém a coisa interessante,e que no fim fazem toda  a diferença .

Assim como quando eu era um moleque em 1987 ,odiava o RPM e amava o Dorsal Atlântica e os Garotos Podres,hoje em dia um monte de jovens odeiam tudo que está na moda e amam os Estudantes,o Leptospirose e o Violator. Quanto as bandas novas ,eu gosto de bandas novas de gente velha como o OFF! e o Jello Biafra and the guantanamo school of medicine e sei lá ,gosto do Fucked up também e de uma banda de Recife chamada Anjo Gabriel,que faz um som instrumental com uma pegada mezzo sabbath mezzo psicodélica.O

Alexandre(vocal) ouve uns 15 discos de bandas novas de metal por semana e segundo ele algumas são tão boas ou melhores que as bandas mais antigas,e se ele falou… tá falado,não se discute com um cara que não corta o cabelo desde a primeira vez que o Metallica tocou no Brasil, em1989.

6 – Quem teve a ideia de voltar aos palcos? O que podemos esperar dos próximos shows?

Demos uma parada há aproximadamente 1 ano, porque tava muito difícil conciliar a banda com nossas vidas pessoais,mas bateu uma saudade e a gente resolveu fazer uns shows para comemorar os 20 anos da banda, e de quebra encontrar com velhas amizades para falar sobre o último disco do Slayer ou do D.O.A e beber um monte de cerveja.

7 – Me fale um pouco sobre seu trampo de desenhista e da loja de discos Chop Suey.

Sou desenhista autodidata, especializado em caveiras ,monstros e gente toda fodida,comecei desenhando cartazes para as minhas bandas e dos meus amigos,depois dos cartazes vieram as camisetas , capas de discos e todo o resto como exposições e toda essa parada.Hoje desenho para umas quinhentas  bandas como profissão ,se bem que gosto tanto de algumas que faria o trampo até de graça(mas elas não podem saber disso de jeito nenhum).

Acho que desenhos e arte em geral podem ser tão selvagens quanto bandas,e é nesse lugar que eu gosto de estar. A Chopsuey é minha pequena loja de discos,as vezes pode ser um selo também,vendo LPs que vão desde Itamar Assumpção até grind core,hard rock,punk rock,Public Enemy e o caralho a quatro também é a loja que eu sempre quis que existisse aqui na minha cidade e nunca existiu,então eu montei,tem também umas camisetas com os meus desenhos e umas gravuras de monstro.

Quem quiser dar uma sacada no material é só ascessar: www.chopsueydiscos.com ,ou dar as caras por aqui.