Conheça o Dandi-Dracula

O jovem prodígio Pedro Zopelar uniu forças ao vocalista performático Ozzie Gheirart para dar vida ao projeto Dandi-Dracula, que promove um  som calcado nas bandas do período do pós punk com generosas doses do efervescente post rock, aliadas a letras grandiosas e dramáticas, nos fazendo sentir um estranho prazer em evocar a melancolia por alguns instantes.

Durante a rotina de intensos ensaios, o duo acaba de lançar virtualmente o EP de estreia “The Cold of The Soul Doensn´t End with The Sun“, que chega acompanhado com mais duas faixas (Blindness & Decay of Lying) dando uma prévia de seu futuro álbum.

Abaixo, uma conversa que tive via e-mail com o vocalista Ozzie Gheirart (ou G-há para os íntimos).

1. Apesar da diferença de idade, você e o Pedro (Zopelar) compartilham de um gosto musical similar. Como foi que vocês se conheceram?

Encontramo-nos por meio do DJ Serge. Ele conheceu o Zopelar no Rio de Janeiro, quando ele estava no Conservatório. O Pedro tinha vontade de ter uma banda de rock – apesar de também ser DJ e produtor. Conversamos muito e encontramos muitas idéias em comum. Marcamos um encontro na semana seguinte para que o Pedro mostrasse seu trabalho e para que eu apresentasse um pouco da minha escrita. No princípio, convidei alguns amigos com quem tinha planos de tocar, mas eles foram totalmente indiferentes ao convite. Apesar disso, encaramos o desafio de fazer tudo em dupla mesmo.Fizemos uma ótima música já no primeiro ensaio e desde então estamos evoluindo muito. E apesar da diferença de idade, nós estamos aprendendo muito um com o outro.

2. Você foi vocalista de uma banda tributo nos anos 90. Conte mais sobre isso.

Não, eu comecei em 1995, com uma banda “cover” do The Cure, que chamava Brazilian Cure. Foi algo divertido e despretensioso! Primeiro, porque eu tinha menos de 20 anos e tinha o direito de ter uma banda cover – nesta época, eu estava bastante envolvido com fanzines e com a cultura alternativa. Segundo, porque sempre achei tanto a estética quanto a música do Cure incrivelmente atemporal. Isso sempre me influenciou muito! Em 1999, tive outra banda que chamava Quarto 101. Fizemos algumas músicas legais, mas nos apresentamos pouco. Não levamos a sério!

3. O projeto começou com o nome de “Blindfold” e foi rebatizado como “Dandi-Dracula”. Você acha que soa mais dramático e universal?

Gostávamos dessa idéia de cegueira, de homem vendado, por considerá-la como um sintoma do mundo de hoje. Taí a era da música de pano de fundo, que contaminou até as pessoas inteligentes! Tem muita gente esclarecida que glorifica artistas como Madonna e Lady Gaga! Fomos emudecidos pelo raso que a música comercial instituiu. Não compreendo o que querem verdadeiramente celebrar! E, numa pesquisa, descobrimos que já existia uma banda inglesa com esse nome. Um dia, numa conversa com o Zopelar, sintetizamos o que era a nossa música no nome Dandi-Dracula. Eu sempre amei esses personagens e a forma com eles interpretavam a vida. Admiro também o flanêur, o bricoleur etc. Nessa simbiose, o Dandi, pra nós, tem um sentido de elegância, refinamento, erudição, nostalgia. O Dracula tem um peso romântico, trevoso, que transpassou o portal que separa vida e morte. Ou seja, o nome é uma associação desses personagens, que são muito fortes e que fazem parte do imaginário universal. Acho que soa mais conceitual para as pessoas que os conhecem! E, é claro, o fato de ser um nome universal nos trás muitas vantagens, pois também enxergamos no idioma inglês a possibilidade de ampliar nossa comunicação.

4. A sonoridade do grupo remete a fase de ouro do pós punk e da chamada darkwave com um pé no presente. Quais são as suas principais influências?

Muita gente diz isso, mas para nós são apenas terminologias. Claro que somos seres históricos e damos continuidade à existência. Não temos problemas em assumir o Scott Walker, Ian Curtis, Jeff Buckley, Layne Staley e Richie James como nossa grande inspiração sonora, poética, estética etc. Mas é para além disso, porque o Pedro é um músico e encontra na música em geral grande referência para as composições: que passa pelo clássico, pelas guitarras de Robert Smith, pelas linhas de piano do Milton Nascimento. E nós trocamos muito, porque sabemos que o segredo está na complementaridade. E queremos dialogar com as ambivalências: como o rápido e o parado, com o grave e o agudo, com a ciência e a filosofia etc. O nosso objetivo em comum é retratar esse mal estar da época em que vivemos. O homem está passando por uma nova configuração! E, só quando o disco estiver pronto, vocês vão entender o todo, que é mais que as músicas juntas. Acho que resgatamos certo “clima” há muito perdido pelas bandas. Estou certo que encontramos o nosso caminho nesse disco.

5. Você acha que o estilo gótico, musicalmente falando, anda engessado?

Não consigo definir o estilo gótico por esse viés, porque para mim é um conceito maior que a música. Prefiro pensar que queremos questionar o lado escuro que nós também somos. Lembro que uma vez o vocalista do Sisters of Mercy disse que a banda mais gótica que ele conhecia era o Carpenters. Aqueles que foram rotulados por gótico, especialmente aqui no Brasil, foram os pós-punk e os que exploraram essa sonoridade. Nós a adoramos, mas a sonoridade do Dandi-Dracula sintetiza nossa época, a tecnologia, o tal pós rock. Para mim, o que apareceu de gótico depois do pós-punk é pastiche – inclusive a própria figura do vampiro. Acho que é uma questão mais ampla e eu não conheço nenhuma “banda gótica” nova, a não ser os tais pastiches, como o Evanescence.

6. Algum escritor que de certa forma vocês admiram e usam como base nas letras?

Bem, eu sou um cientista. Apesar de ser oriundo da comunicação, estou me doutorando em antropologia. Atualmente, meus estudos se voltam para pensar uma ética antropológica. E a minha narrativa conversa como muitos escritores. Entre eles, Artaud, Rimbaud, Lautréamont, Drummond, Nerval, Pessoa, Rilke, Hesse, Camus etc. Mas estou sempre lendo muitos pensadores (como Heidegger, Deleuze, Sloterdïjk, Benjamin etc.). Tenho me interessado muito na ligação dos saberes e estou pesquisando astrofísica.
Quando falamos que o Dandi-Dracula é uma possível combinação entre um músico e um intelectual, pensamos no intelectual como alguém que pensa sobre os problemas da existência.

7. Algum artista nacional que vocês admiram?

Claro. Mas gostamos de artistas propositivos e com algum comprometimento com a arte! O Pedro adora o Hermeto, o Milton e Clube da Esquina. Ontem, por exemplo, ele ouvia uma coletânea de rock nacional, como as Mercenárias, Fellini, Akira S. Eu também gosto dessa galera nova do rock, como o Vanguart. Admiramos os que fazem boa música! Para mim, no rock, ninguém superou os Secos e Molhados. E eu fiquei muito feliz porque o João Ricardo gostou do Dandi-Dracula. Mas tem muita gente competente aqui no Brasil!

8. Previsão para apresentações ao vivo e lançamento físico de seu recente EP?

Já temos nosso primeiro disco “Cold of the soul” delineado. Precisamos finalizar as músicas. Lançamos o single “The cold of the soul doesn’t end with the sun” no dia 18 de novembro e já temos nosso próximo single quase pronto. Paralelamente, a banda está se formando com a chegada de outros membros. Mas creio que o ano de 2011 vai dar conta de tudo que você pergunta.

The Cold of The Soul Doensn´t End with The Sun

“Siamese Twins (The Cure)”

2 pensamentos sobre “Conheça o Dandi-Dracula

Vai, pode falar.

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