Entrevista: Tetine

O casal Bruno Verner e Eli Mejorado sempre esteve à frente das tendências e experimentalismos musicais com seu cultuado projeto multimídia Tetine. Foram diversos álbuns, flertes com o rock underground produzido no Brasil nos anos 80, com a IDM,  e com o popularesco funk vindo das favelas cariocas.

Na estrada desde 1995, a dupla vive um de seus melhores momentos com o ótimo “From a Forest Near to You” assumindo cada vez mais a vocação de embaixadores do “punk funk mutante”.

1-Sempre quis perguntar isso. Porque o nome Tetine?

Porque Tetine soava orgânico pra gente, queríamos um nome que tivesse a ver com a musica que estávamos produzindo na época. Algo que desse leite. Foi puro acidente, um dia folheando um dicionário de Francês caímos nessa palavra Tetine que significa ‘chupeta’, bico de neném. Em Italiano significa teta de vaca e em português a palavra não existe, mas soa como teta, peitinho, vaca… Gostamos do som.

Tinha a ver com a parada de fazer ‘musica eletrônica orgânica e sensorial’ que era como acabamos definindo nossos primeiros shows na época do Alexanders Grave. A principio íamos fazer só um show com esse nome, mas daí acabamos pegando gosto e o Tini virou uma banda. O resto é história.

2- De “Alexander´s Grave a “From a Forest Near You”, o que mudou para vocês nestes mais de 15 anos de música?

Acho que amadurecemos como músicos e como artistas. Foram várias fases e muita coisa aconteceu. Mudamos do Brasil no final dos anos 90, fomos parar na Inglaterra. Gravamos um disco com a Sophie Calle, nos envolvemos com a galera do funk, participamos do início da Resonance Fm em Londres com o programa Slum Dunk, fomos parar na Soul Jazz, gravamos mais discos, fizemos um monte colaborações artísticas. Foi muita coisa legal acontecendo. Acho que isso tudo fez a gente amadurecer um monte.

3- Vocês sempre tiveram uma veia experimental muito forte em seus trabalhos mesmo quando investiram numa sonoridade mais dançante como o funk carioca. Nunca pensaram em fazer músicas especialmente para a pista como muitos têm feito nos últimos tempos?

Na nossa cabeça, a gente faz musica pra pista também, por exemplo ‘Yr Daughter Lies’, ‘Let’s Get Together’ e ‘Shiva’ – tracks do  nosso ultimo disco, são musicas que também funcionam pra pista.  ‘I Go to the Doctor’ é puro old school electro. O Tetine é do punk-funk, meio cosmic, meio eletropop, meio disco, acho que da pra muita gente dançar também dependendo da seleção do DJ. Você pode dançar, mas também ouvir no fane ouvir em casa lavando a louça, trabalhando ou dirigindo.

Mas acho que a diferença com relação a fazer musica especialmente pra pista é que não estamos interessados na ‘guerra do volume’, da compressão desenfreada como ‘anabolizante’ para dar ‘peso’ nos beats. Eu vejo muito isso nas produções recentes. Esse tipo de produção nunca foi muito a nossa praia. No fundo eu gosto mesmo é de Kraftwerk, old school electro, mutant disco… Não precisa de drum machine super bombada pra isso… Tem só que ser quente.

O importante pra gente é a que a musica tenha uma identidade, uma sonoridade que você sabe na hora que alguém tocar que ela é nossa.  Se eu conseguir isso já fico bem satisfeito.

4- No novo álbum, são perceptíveis referências da no wave, em especial, de bandas do underground brasileiro como Agetss, Akira S, Black Future, etc. Como foi viabilizar o lançamento de uma coletânea de artistas obscuros daqui para os ingleses? O feedback foi bacana?

O Sexual Life of The Savages é um disco que temos um carinho imenso. Foi muito legal ter concebido esse projeto todo e ter tido a oportunidade de lançar o álbum pela Soul Jazz Records. Pra gente foi um prazer escolher as bandas, as musicas escrever as liner notes criar o titulo… Encaramos o disco como um projeto de arte do Tetine.

A repercussão foi super legal e colaborou bastante pra mudar o tipo de olhar sobre a musica brasileira na Europa. Os feedbacks do disco foram todos excelentes! Tanto eu quanto a Eli viemos originalmente do pós-punk, eu tocava no R.Mutt, no Divergência Socialista, no Ida & Os Voltas, todas essas bandas já faziam musica eletrônica ainda nos 80. Acho que de alguma maneira isso tudo deve ter refletido na musica do Tetine como influência também.

5- Tropical Punk é um bom nome para descrever o som único que o Tetine faz? Tem algum outro artista que poderia ser incluído?

Tropical Punk é um espírito, uma estética. Uma metáfora que define uma sonoridade e o conteúdo da coisa toda. Criamos o termo pra definir o que a gente faz. Tem a ver também com não ser um derivativo da musica européia ou americana do ponto de vista musical.

Tem muitos artistas que na nossa cabeça é parte desse mesmo “espírito”: Julio Barroso, Jarbas Lopes, Howard Amb, Cosy Funny Tutti, Itamar Assumpcao, Helena Ignes, Panico, Rogerio Sganzerla, Tom Zé, Avelino Bezerra, Pablo Leon de La Barra, Karine Alexandrino, Rubinho Troll, Alex Antunes, As Mercenarias, Black Future, James Chance, Kid Creole, Genesis P. Orridge, Yoko Ono, Alice Pink Punk, Bonde das Bad Girls, Arthur Russel… e por ai vai.

Mas também tem gente que adora se auto-definir como “tropical punk” sem ter nada em comum, por pura autopromoção. A sensação que da quando isso acontece é aquela da cárie no seu dente.

6- Como foram as gravações dos últimos clipes? Foi difícil escolher um cenário que se encaixasse nas músicas?

Já tínhamos na cabeça o que queríamos fazer pro Tropical Punk, daí fomos para um sitio de um amigo em Portugal na Serra da Azoia e filmamos tudo por lá mesmo. Já o clipe de Shiva foi um pouco mais difícil, era bem cansativo pra Eli filmar porque ela já tava grávida de quase sete meses e subir e descer aquelas dunas no sol o dia todo era bem hardcore.

7- Cite um artista do passado e um do presente que de certa forma influencia suas composições.

Arthur Russel e Rogério Sganzerla do passado-futuro e Howard Amb do presente-futuro!

8-Planos para visitar o Brasil este ano?

Devemos ir em outubro. Tem uns projetos em andamento para que isso aconteça. Não vejo a hora!

“Shiva”

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