Entrevista: Club Silêncio

club silêncio

Formado por Luís Speedkills (vocal, guitarra, synths), Fábio Pop (guitarra, synth), Daniel Spot (vocais, samplers) e Jéferson (bateria), o Club Silêncio tem deixado sua marca no underground candango e aguarda uma oportunidade para levar seu som para as massas eletrônico-roqueiras do país.

Talvez, o melhor grupo da leva indietrônica atual e um dos artistas mais empolgantes surgidos na cena independente nos últimos cinco anos, o Club tem direcionado seu som cada vez mais para as pistas e o resultado foi o ótimo EP “Baladas Modernas”.

Conversei com um de seus “sócios”, o figuraça Luís Fernando (aka Speedkills) que além de tocar na banda, produz trilhas e produz alguns remixes ocasionalmente.

Bezzi – Você acha que o rock virou dance-music ou aconteceu tudo ao contrário?

Luís – Dance music virou rock. Mas veja bem, não se pode generalizar… Dizer que a música eletrônica de maneira geral virou roqueira seria um ultraje. Afinal de contas, não se pode colocar um Aphex Twin na mesma linha que um Justice, que apesar de eletrônico, tem um pé carregado no rock. Existe um oceano entre coisas como IDM e isso que chamam de electro-rock. Talvez o mais sensato fosse dizer que o rock está mais voltado pra pista de dança e a dance-music mais aberta pra guitarras.

Bezzi – Quem frequenta bar também gosta da pista?

Luís – Sim, sem dúvida! Em Brasília os bares fecham às duas da manhã. E é nessa hora que as festas começam a encher. Sexta é quase que sagrado isso: chegar no bar as nove, beber até as duas, ir pra alguma festa depois e ficar por lá até amanhecer.

Bezzi – Como anda a cena de Brasília? Quais nomes da cena eletrônica te chamam a atenção?

Luís – Brasília tem muita banda boa, dos mais variados estilos. O que complica por aqui é escassez de espaços. Não me refiro somente a locais pra shows, mas também a espaço na mídia e público. Existem poucas opções para as bandas de rock daqui: existe o Cult 22, que ainda consegue ser o meio mais democrático pra isso. Existe a revista Senhor F, que está mais preocupada em mostrar o rock do sul, do Peru, e da Bolívia… do que divulgar a cena local.

Faltam festivais de pequeno e médio porte. As pessoas até tentam e algumas produtoras (como a Torneira) bravamente ainda se arriscam. Mas é complicado, não está sendo fácil organizar shows independentes. O custo é alto. E é sempre risco, pois nunca se sabe se a grana da bilheteria vai servir pra arcar com as despesas. Tem gente por aqui que queimou tanto o rock da cidade, que parte do público começou a achar que não existia nada de bom por aqui, chegando até o ponto de se voltarem contra as bandas (em casos mais extremos). Sendo que existe sim coisa de qualidade feita aqui! Numeraria fácil umas dez, mas vou citar agora somente o Disco Alto, Tiro Williams e o Watson.

Já em relação às produtoras de festas e à cena eletrônica em geral, a coisa fica diferente. As festas estão cada dia mais organizadas, cheias e conhecidas, com noites fixas pelo menos três vezes na semana e pra vários gostos, desde eletrônica, indie, rock e até samba. Sem contar nos sites, frequentemente atualizados e programas de rádio. Com toda essa onda, nada mais natural que nomes legais daqui estão ganhando cada vez mais espaço, como The Random e Allan Villar.

Bezzi – Por que o novo trabalho foi batizado de “Baladas Modernas”?

Luís – Pode não ser claro, mas o disco tem um conceito. Não é que esse conceito existia no início, mas à medida que começamos a escrever as músicas, percebemos que todas elas, de uma forma ou de outra, possuíam uma ligação com experiências que passamos em shows e festas por aí. Querendo ou não, temas ligados às noitadas estavam sempre na nossa mente — muitas vezes nos atormentando —, nos afetando muito mais do que a crise econômica mundial ou a guerra na Palestina, por exemplo. No momento em que nos tocamos disso, tentamos refinar tudo, deixar o conceito mais coerente (e claro) possível. Se você parar e analisar o disco por esse lado, algumas músicas soam bastante explícitas. Como a euforia de “TimBalada”, ou a própria faixa-título, que explica bem um outro lado disso.

Tanto música como letra são exemplos claros de várias noites mal dormidas, descontrole, sensação de vazio… Enfim, até a rebordose aparece no álbum. Assim, o título surgiu naturalmente: as músicas tratam de nossas experiências na noite afora. Na capa, tentamos simbolizar isso com a menina “baladas modernas” contrastando com a sobriedade que é peculiar aos membros da banda. E isso se segue nas nossas fotos de divulgação, onde novamente a menina que simboliza esse caos todo que nos metemos nos olha, ora com raiva, ora com curiosidade, desejo… Enfim, com a montanha-russa de emoções que uma noitada cheia de altos e baixos pode proporcionar.

Bezzi – A faixa “Namorado DJ” foi baseada em algum fato verídico?

Luís – Foi! Um de nós estava dançando, numa festa frita dessas, enquanto um namorado DJ de nome X, que dançava com o Gonzalo (outro DJ daqui de Brasília que costuma fazer festas bacanérrimas), largou sua bela namorada lá. Exatamente como a letra diz. Até o nosso saudoso ex-governador Joaquim Roriz, sampleado no início, concorda: “Será que é justo?”. Já o desfecho dessa historia, fica a cargo de uma nova música.

Bezzi – Fiquei sabendo que você publica um blog bem popular entre os fanáticos por raridades sonoras. Pode falar mais sobre isso?

Luís – Sim, se chama “Lúcio Papeiro – Sensata“. Tem quase dois anos que posto álbuns lá (recentemente ele foi removido, mas consegui um novo servidor). Lá eu posto desde a mais recente pepita do Autechre, alguns clássicos e coisas como Erik Satie e John Zorn. Não é um blog voltado pra musica X ou Y. Apenas posto coisas que eu gosto e escuto. Tento apenas manter uma certa regularidade. Mas não recomendo acessá-lo, se a intenção for baixar o novo do Franz Ferdinand.

Bezzi – Antes eu achava vocês uma boa banda indie, agora acho uma boa banda pop. Como foi essa transição?

Luís – O mais engraçado é que de fato eu percebi uma transição. Mas não uma transição em termos de sonoridade (apesar de ser algo evidente), mas sim na forma de escrever as músicas. É claro que nos cansamos um pouco das microfonias e começamos a dar mais destaque a outros fatores, mas a maneira de compor foi o que mais me surpreendeu.

Esse álbum foi praticamente escrito em conjunto e composto em ensaios. A coletividade em cima dele é tão evidente que chegar ser engraçado, pois nota-se perfeitamente onde é tal integrante em tal trecho de tal música. E não tenho nada contra o termo “pop”, “indie”, ou seja, lá que for. Uma das metas da gente é justamente fazer música (independente do estilo) na qual a gente possa se orgulhar depois de velhos. Além da promessa de lançar um álbum por ano, que até agora estamos conseguindo.

Bezzi – Planos para uma turnê?

Luís – Sim, claro! Onde for possível… basta nos chamarem.

Entrevista publicada originalmente no site FiberOnline em 29/01/09

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4 pensamentos sobre “Entrevista: Club Silêncio

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