Entrevista: DJ Guab

O paulistano Gustavo Abreu (Guab) tem se destacado ao longo dos anos pelos seus sets inusitados que flertam com diversos estilos. Já lançou dois discos mixados (rockmixtape 1 & 2),colaborou com o maluquete Tom Zé e manteve uma residência bombástica na festa “Mixtape”(2004-2008) que lhe rendeu um convite para apresentar-se no Tim Festival anos atrás.

Com dez anos de carreira, Guab faz questão de continuar longe dos holofotes e raramente topa tocar fora de sua atual noite “A Memetics” no Neu Club . Bati um papo com ele sobre os atuais caminhos da cena noturna, influências e óbvio, discos de vinil.

De onde surgiu seu ilustre apelido?

Foi um nada ilustre computador. Ele juntou as iniciais do meu nome com as do sobrenome pra caber em apenas quatro dígitos. Nem chega a ser um apelido, é um login mesmo!

Devido a seu som ser bem eclético, você tem fãs e admiradores de diferentes vertentes. Quando que você começou a misturar tantos estilos num set?

Isso vem desde sempre pra mim, mas só recentemente eu me dei conta da explicação. Antes mesmo de comprar meus toca-discos eu já tocava bateria e era envolvido com um monte de gente que curtia música. Eu percebia que cada um gostava de uma coisa, que tinha muitos tipos diferentes de som e de opiniões e, principalmente, que havia mais músicas do que ouvidos. Ou seja, ocorria uma concorrência entre as canções pela sobrevivência na cultura. Durante essa época eu vi alguns estilos nascendo diretamente de outros, se misturando, e os problemas de classificação que isso gerava. Por exemplo, tinha um estilo que se chamava clownstep, era um drum and bass que vinha do jungle que vinha do reggae que vinha do ska e por aí vai…Mais tarde, lendo sobre biologia veio o paralelo. Assim, como as espécies, os tipos de música também são todos primos e evoluiram de uma canção ancestral comum que provavelmente soou na África há milhares de anos. Então acho que uma pista com muitos estilos variados é um ecossistema com mais biodiversidade. O nome disso é memética, pra rimar com genética. E ela prova que música é vida, e que todo discotecário é um memeticista.

Já tocou algum estilo mais linear?

Ah, na real a gente que teve a formação ali nos anos 90 sabe como é, né? Você também se jogou. Era o auge da eletrônica e as pistas trabalhavam com um único BPM a noite toda. Era como um varal onde se ia pendurando as mixagens. E como era foda, não era? Agora já com um tempo grande só tocando mistureba… Pô, meu sonho é fazer sets estritos! Só de dubstep, rap, house, drum & bass…

Qual foi a melhor apresentação da sua carreira?

Juro pra você: foi sábado na Memetics. Mas vale a menção ao final do TIM Rio, de frente pra baía de Guanabara, com o sol nascendo e mandando ver no Cartola.

E a pior?

Pior que nem me lembro!

O laptop e o mp3 vão matar mídias como CDs e vinil?

Engraçado, nesses dias mesmo um amigo mandou essa tirada:  “tô investindo em petróleo, comprando vinil!”. É bem legal ter uma coleção. Vinil é fetiche, CD é mato.

Tem muita gente que embarcou na onda e virou DJ só para aparecer. Hoje em dia boa parte dessa garotada nunca encostou numa vitrola ou colecionou discos. O que você acha disso?

Sinceramente, acho até que tem pouca gente querendo discotecar. As vezes tenho a impressão de que tem mais variedade de gadgets e sistemas digitais do que discotecários propriamente. De qualquer forma, acho também que é exatamente essa a graça: a vanguarda hoje vem dos programadores de software. Mais que os caras do Daft Punk ou do Justice, foi o grupo que desenvolveu o Ableton Live quem possibilitou toda uma estética nova no mundo da música.

A cena noturna anda valorizando demasiadamente as “personalidades virtuais” e “famosos” de ocasião para discotecarem. Até que ponto isso prejudica os profissionais da área?

De novo, vou inverter esse pensamento. Acho é que tem pouca gente querendo discotecar. Nessa nossa cidade com os números na casa dos milhões que tem, de público, de dinheiro… Tem sempre gente a fim de festa, e muito a fim, de muita festa. Tem rap, eletrônica, rock, samba, jazz, todas as noites, no centro e na periferia, pop e underground. Lota o bailinho das celebs, mas lota também o dub no porão da augusta. Mano, essa cidade é fodida! Eu, na condição de “profissional da área”, acho que não prejudica nada não, queria era mais atrizes e DJs revelação discotecando e fazendo festa comigo.

Cite três álbuns fundamentais que nunca saem de seu case.

Pra começar: The Streets. Sou um cara até chato pelo que eu toco de Mike Skinner na pista. Não é todo mundo que gosta ou entende aquele inglês cockney dele, mas eu me identifico e ele é um grande escritor; sempre tasco pelo menos uma da sua discografia. Daí vem Radiohead na mesma pegada. E veja só, Racionais MCs pra completar o raciocínio. Assim como o Skinner ou o Thom Yorke, o Pedro Paulo, vulgo Brown, é um grande escritor e pro final da noite fica sempre um ensinamento, uma palavra de sabedoria.

Na música eletrônica, tem algum estilo que você tenha preferência?

Hoje é o dubstep. E para sempre será o jungle.

Ser Low-Profile ou acreditar no Hype?

Go low.

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4 pensamentos sobre “Entrevista: DJ Guab

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