Entrevista: Tito Figueiredo

Tito Figueiredo é uma das instituições da cena alternativa do Rio de Janeiro ao lado de nomes como José Roberto Mahr, Jenner e Edinho. O músico/DJ foi um dos primeiros a apostar na fusão rock e dance nas noites cariocas e bateu de frente contra os xiitas.

Nos dias de hoje, a mistura nunca foi tão bem aceita por grande parte do público, porém, Tito se mantém fiel à suas raízes e sempre pregando o evangelho dos bons sons para uma pista que cada vez mais, fica diluída com o pop teen que invadiu a rede. Bati um papo com essa figura que contou sobre seu início de carreira e seus novos projetos.

1-Assim como muitos Djs de rock, você flerta muito com dance music e eletrônica. Conte um pouco dessa trajetória.

Minha monografia na faculdade de jornalismo (carreira largada) foi sobre Bossa Nova. Então, quando o assunto é música, eu não só flerto com tudo como sou um promíscuo assumido. Rs. Não sei dizer qual é a minha. Amo boa música, acima de tudo. E o próprio público também já não atura mais a mesma sonoridade a noite toda.

Meu ecletismo talvez seja fruto de uma infância pobre… rs. Na minha casa só tinha um velho rádio National AM/FM/SW1. Então, quando eu ia pra casa de alguém que tinha uma aparelhagem melhorzinha, um simples toca-discos, qualquer música me divertia.

Bem moleque, uns 11 anos, eu ouvia Led Zeppelin, electro-funk (as melôs do miami bass), Balão Mágico, punk rock nacional e até fado com o mesmo entusiasmo; curtia tudo que chegava aos meus ouvidos, indiscriminadamente. Logo depois, através de primos mais velhos, tive contato com as bandas de rock mainstream tipo U2 e Police (lembro que odiava Duran Duran, A-ha e Dire Straits, hahaha).

Aí vieram a adolescência, as festinhas… Sempre fui tímido. Na azaração, um desastre. Chegava na boate e corria pra perto da cabine de som. Era uma maneira de me esconder, proteger, sei lá… Adorava os equipamentos, aquelas luzes todas… Era fascinante observar o DJ ali dentro.

A primeira vez que “vi” uma mixagem foi o start. Percebi finalmente que aquelas duas batidas sincronizadas eram resultado de toda uma coordenação, tudo gerado por um aparelho específico, por um manejo técnico particular e encantador. Pirei!

Muitos me associam ao rock, ok. Mas nunca comprei um disco sequer do Iron Maiden ou do Ramones. Aos 12/13 anos, meus ídolos eram Iraí Campos, Marlboro e Memê!

Em 1987, conheci o maior animador dos playgrounds de Copacabana. Requisitado pra todos os agitos aborrescentes do bairro. Logo me aproximei, ofereci ajuda. Franzino, eu carregava quase tudo sozinho. E a pé! Engradados com centenas de discos de vinil, caixas de som, amps, tudo. Em troca, ele me dava umas aulas. Na verdade mais peso, esporro e alguns cascudos do que aulas. Detalhe: só me deixava tocar até o primeiro convidado chegar ao salão.

Ah, como eu invejava aquelas suas duas picapes CCE com pitch… Aquele tosco mixer Tonos de dois canais… A grana que ele ganhava era toda detonada nos não menos invejáveis 12’’ importados (que ele gravava pros tolinhos como eu em K7 por preços exorbitantes, ainda colocava uma vinheta pessoal e horrenda em cima!).

Na música, sem dúvida, o meu marco foi a coletânea “Substance” do New Order. Economizei muita merenda pra comprar aquele LP duplo – mesmo sem ter onde tocá-lo.

Um dia meu pai chegou em casa com um 3 em 1 da Sony. Porra, que felicidade! Numa tarde qualquer, talvez saturado das partidas solitárias de botão, eu descobri o melhor brinquedo ever. Sem querer o seletor ficou entre o phono e o tape: “Bizarre Love Triangle” (no vinil) e “Pump Up The Volume” (gravado num K7) saíam juntas pelas mesmas caixas e no mesmo volume! Eu finalmente tinha um mixer!

O pitch era o dedão empurrando a bolacha, o freio era um toque moderado no pause do tape-deck! Esse foi o meu curso de DJ!!! Quantas e quantas festas gigantescas eu fantasiei de olhos fechados, separado do mundo por um headphone.

Cresci, tomei toco de todas as meninas que eu me apaixonei. E aí não era mais bobagens como Rick Astley ou Information Society que faziam minha cabeça. Minha música favorita do “Substance” virou “Ceremony” e, graças a ela, conheci Joy Division, que por sua vez me fez correr atrás de muita coisa: punk, pós-punk, Kraftwerk, Velvet Underground, Moroder, dub/skasoul/funk/disco… Virei vinil addict, frequentador assíduo do meio underground, das festas do Maurício Valladares, do José Roberto Mahr, do Edinho…

2-Você já fez parte de bandas no Rio, algumas que ficaram conhecidas no circuito indie. Tem vontade de produzir algo menos rocker e mais “sintetizado”?

Toquei baixo na fase “menos furtiva”, digamos, do The Cigarettes (CDs “Brazil’s Sad Samba“ e “Bingo” – selo Midsummer Madness). Foi uma época divertida. Viajei pelo Brasil e foi bacana ter alguma sacação de estúdio, pedais, amps… Mas músico é tudo mala, cara! Gente presunçosa por natureza. O mancebo mal aprende um acorde e já se sente o Bowie.

O Marcello Collares era um baita compositor. Podia estar rico. Mas foi deplorável a produção daqueles discos… Puro desperdício de tempo, de talento. Hoje soa datado demais! Soube outro dia que até hoje tem muita gente que encomenda, faz download, cata nos sebos… Eu, sinceramente, fico constrangido quando ouço aquilo.

Resolvi montar um home studio há uns dois anos. Coisa modesta. Tenho algumas composições prontas e outras embrionárias. Se tudo der certo, lanço um EP até 2011. Não criei uma nova sonoridade, mas não saberia como categorizar essa minha tentativa. Um amigo chamou de “IDM pop e linear”. Inteligent Dance Music? Não, cruzes! Tá mais pra “Sad Dance Music”. Rs.

Basicamente trabalho com samplers; cato loops e riffs de faixas obscuras, perdidas. Acrescento um arpegiador aqui, uma guitarra mais percussiva ali, um track de baixo, flauta, escaleta… Escrevi algumas letras também, mas só cantaria se fosse com vocoder. Odeio ouvir minha voz!

É orgânico e é sintético. Não conseguiria fazer de outro jeito. Um amigo mandou pra um selo gringo e os caras se entusiasmaram. Os poucos que ouviram gostaram. Até mais do que eu!

3-Dentre os artistas e produtores eletrônicos, quais você mais gosta?

Ah, tem tanta coisa… Das velharias: Conny Plank, Moroder, Soccio, Kevorkian, a galera de Sheffield… Mas, pô, até George Martin e Lee Perry usavam eletrônica!

Pra ser franco nunca curti essa coisa durona e repetitiva do techno, por exemplo. Não curto Detroit, EBM, industrial, minimal, nada disso… Acho enfadonho. Sinto falta de harmonia, melodia, síncope…

Das coisas mais novas… Acho “nu disco” uma bobagem. Pode parecer comum, mas pago muito pau pra James Murphy. Depois do electro-clash, geral já pressentia que o próximo passo seria resgatar o pós-punk. Mas eles foram certeiros ao encaixar a vibe disco/funky nessa jogada. Criaram todo um conceito, uma identidade e, acima de tudo, colocaram coração tanto ao vivo no palco quanto na pista. Enfim, mostraram pros clubbers que rock também se dança, pros indies que groove em cima de tum-ts-tum é cool. A DFA foi necessária. É isso. Apareceu na hora certa. E e inegável que tem perdurado com considerável inventividade, né?

4-É mais difícil mixar rock, house, ou os dois juntos?

Mixar rock é foda porque o pique da batida é humano. A bateria tem pequenas variações no andamento que te sacaneiam. Aí a transição tem que ser curta pra vc não se ferrar… Ou então você tem que treinar muito (o que eu não faço) pra saber onde elas ocorrem. Meu set sempre foi de improviso. Levo de tudo. Toda vez que preparei set em casa me ferrei. Meu treino é no clube, todo fim de semana, há quase 14 anos ininterruptos.

Não saberia dizer o que é mais fácil ou difícil de mixar. Tem noites que eu nem mixo. Tem noites que eu tento mixar tudinho, até Jorge Ben com Phenomenal Handclap Band, rs.

Ausência de técnica não me irrita. Você pode ser um puta selector. Virtuosismo também não me seduz. O que me incomoda são os clichês. Tipo aquela presepada convencional com as frequências. Já ficou babaca o “tirar o boi da sala e colocar de novo”… Que é como eu chamo a “técnica” (pfff) de tirar o grave e carregar de volta na hora que a faixa bomba… Isso já deu, né? Prefiro ouvir uma sambadinha a ouvir clichê ou transição previsível.

5-Você não é um adepto dos sets online. Porquê?

Confesso que sou chato com isso. Não faço e raramente escuto. O trabalho de um DJ funciona é alí na pista, cara. Interpretar a vibe, sentir o feedback do público. Meu mix-tape não vai sair nenhum “Larry Levan Paradise Garage” mesmo, então pra que fazer? Hahaha.

6-Além de atuar como músico e DJ, você tem um programa de rádio. Fale mais sobre ele.

Não faço mais. Era na Multishow FM/Globosat. O pessoal de lá era 10. Tinha liberdade total: tocava MFSB, Gang Of Four, Cabaret Voltaire, Bomb The Bass, 808 state, New Young Pony Club, Prins Thomas, Chicken Lips… Enfim, clássicos e lançamentos do pop, do indie e do eletrônico… Mas a molecada só mandava e-mail pedindo Fall Out Boy, Guns N’ Roses, Shakira e Muse. Na boa? Cansei de jogar pérola pra porco. Pulei fora.

7-Tem planos de algum dia organizar uma festa mais voltada para e-music do que para o indie rock?

Além de desserviço, seria um retrocesso. Acho uma bobagem esse papo de segmentar. É bom demais chegar numa festa eletrônica e fazer as pessoas fritarem com guitarras. Ou tocar um remix do Of Montreal ou Whitest Boy Alive num clubinho indie. Se tem algo que se salva na noite (hoje dominada por festas de pop standard aleatório) é justamente essa interseção. Música é música. São as mesmas 12 notas. Já disseram que discotecar é como escrever um conto, um romance… Você cria diversos personagens, com características e comportamentos diferentes. Aí, cabe à tua sensibilidade saber fazer esses diversos personagens se relacionarem.

4 comentários sobre “Entrevista: Tito Figueiredo

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Vai, pode falar.

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